Hoje eu acordei antes das oito. Coisa de quem não tá legal,
né? Acordei achando melhor arrumar logo a cama, tomar logo um café
ou água de coco. Tem dor que é melhor não coçar a coceira. Tem coceira que é uma
ferida maior do que você imagina. E enfim, acordei. Aí trabalhei bastante no meu projeto. Adiantei boa
parte dele. Afinal, amanhã vou pro Rio. E quando penso que vou fazer tudo
aquilo. Aquilo de aturar aeroporto, avião, táxi... Aturar tudo aquilo sem
ter você. Aí fico aqui imaginando que mão vou apertar forte na hora do avião decolar. Porque é
tão mais fácil aturar a vida sabendo que tem você. Agora sem você, meu amigo, a
coisa é feia. Realmente feia. Mas aí minha amiga me chamou pra almoçar. Olha que
bom. E eu fui feliz. Então a coisa melhorou um pouco. Depois fui com o Kiko visitar um amigo
roqueiro, doido e budista que recebeu um lama francês em casa. E o cara falou
sobre karma. E eu fui ficando realmente desesperada porque aconteceu tanta coisa
maluca nesse encontro. E eu colecionava vida pra te encher dela depois. Agora
encho quem ou o quê? O que eu faço com a vida? O que eu faço com a graça da
vida? O lama falou que matar bicho dava karma ruim. E uma mulher, você não vai
acreditar, mas uma mulher perguntou se matar mosquito da dengue dava karma ruim.
E eu queria tanto te contar. Você tá rindo, não tá? É tão bom quando você ri.
Olha, tudo bem, eu sei, eu entendi. Mas é foda, é tão foda. Depois comi pão de
queijo com suco de morango numa padaria aqui perto. E mais uma vez lembrei de você. Ah, e ontem. Fui na
livraria. Tão legal lá. E tavam todos os meus amigos. A Letícia perdeu o
emprego e estava super engraçada mandando um palavrão atrás do outro. A Ana vai
cantar semana que vem. E eu consegui superar meu medo de eletricidade. E eu queria te contar. Sei lá porquê. Essa hora que a
gente se contava me dava força, sabe? Me dava gostosinho na alma. E sabe o quê?
Descobri que dá pra ir a pé na creperia aqui da rua. E tem vista bonita. Fui
ontem. Tava calor. E a gente não fez isso. A gente não fez tanta coisa. Mas o
que dói mesmo é esse finalzinho de dia. A hora que eu validava a minha
existência com a sua atenção. A hora que eu representava o mundo para a única
platéia que me interessa. A hora que eu me irritava um pouco, porque fazia
parte. E então tudo isso que pensei e vivi ganhava um motivo maravilhoso e digno
que era virar imagem no seu ouvido. Virar realidade. Agora fico aqui me
perguntando se eu existo mesmo. Porque se não me conto pra você, o que eu sou?
Pra que serve? E ainda tem ingresso pro show, ainda tem esses DVDs aqui. E
a cadeira balança com o vento lá fora e quando eu vou ver tô chorando daquele
jeito que faz mugidinhos. Amanhã eu vou pro Rio. E vou ter meus pânicos todos. E
no final do dia...O foda é o final do dia. Sem me depositar em você
pra respirar sem rinite. Sem bater meu cartão em você pra ter o descanso de quem
pode terminar bem o dia. Eu sei, eu entendi. Só queria te contar. Eu sei que
ficou meio Bridget Jones esse texto. Eu sei que nunca é o que poderia.
Mas eu amo você. Só queria terminar dizendo isso. Eu amo você. De verdade.
Texto Adaptado de Tati B., que me entende.

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